O intrigante é que as regiões mais beneficiadas por políticas de promoção social, implementadas pelos últimos governos, registraram índices de criminalidade elevados. O argumento da pobreza ser a gestante do criminoso, frente aos últimos números do IBGE, frustra os defensores da tese. O crescimento da criminalidade está a merecer, portanto, explicações menos simplistas. E medidas efetivas. É lamentável que o jovem seja o alvo deste problema. 

O assunto menor infrator, na ausência de uma discussão mais aprofundada, parece enveredar por um caminho inconveniente: seus delitos e contravenções continuam recebendo uma cobertura inapropriada dos meios de comunicação.

O adolescente, como é sabido, carece de uma grande necessidade de aprovação do seu grupo de referência, a que pertence e ao qual presta contas. Na busca de reconhecimento, expõe-se inconsequentemente a riscos, movido pela rebeldia natural e típica da idade, muitas vezes estimulada por adultos criminosos. Afinal, o caráter exibicionista, desregulado nessa fase da vida, pode contribuir para incitá-los a obter destaque no grupo, prestando-se a práticas nada saudáveis e socialmente repreensíveis.

Nas recorrentes abordagens de fatos negativos pela mídia, relativas aos desatinos cometidos pelos menores, não se percebe  o necessário cuidado para evitar a consolidação dessa aura de onipotência que cerca o mundo dessas não mais crianças e ainda não adultos. Frequentemente emerge o inevitável assombro e indignação da sociedade diante da enxurrada de noticias sobre seus desvios comportamentais. Constata-se uma superexposição midiática do menor que comete roubos, crimes e assassinatos.

A espetacularização dos seus atos, a dramatização das reportagens, assegura-lhes um reconhecimento positivo perante seus pares delinquentes, embora desastrosos para as vítimas. A própria audiência vive a dualidade de deplorar e, ao mesmo tempo, sentir-se capturada pelas histórias dessas celebridades negativas.  Esse drama social, muitas vezes, adquire dimensão de aventura cinematográfica, conferindo poder a seus protagonistas que continuarão a empregá-lo predadoramente. Quando ocorre assalto, latrocínio, agressão ou estupro, a ênfase da notícia passa a ser os atores, quando cometidos por menores. A violência é o fato em si, independentemente de quem a cometeu. Quando o praticante menor ganha destaque na ocorrência policial, incorre-se no risco de imprimir um reforço às ações infratoras desse segmento, dando-lhes uma visibilidade altamente compensadora.

Hoje o menor infrator tem um lugar quase de honra dentro das quadrilhas criminosas, porque cabe a eles assumir a responsabilidade pelas ações mais violentas, já que os maiores correm risco de serem seriamente penalizados. O menor expiatório passou a fazer parte do arsenal das quadrilhas criminosas. Aqueles meninos de 14, 16 ou quase 18 anos, praticamente inimputáveis, carregam as armas e são encarregados de dispará-las. Heróis nas gangues e, quando muito, "apreendidos" pela sociedade.

A mídia deve ter cuidado para não enaltecer esses desatinos e esses personagens para não criar novos “comando qualquer coisa da capital”. Aliás, ao nominar essas facções ou batizá-las com siglas, em letras maiúsculas, a mídia empresta-lhes legitimação, distinção, um brilho de poder, sugerindo uma conotação aventuresca ou videogâmica.
Números do IBGE assuntam: violência envolvendo os jovens aumenta, apesar do combate à pobreza.



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