Na política brasileira, os bastidores de uma campanha eleitoral são povoados por figuras curiosas, muitas vezes desconhecidas do grande público. Além dos tradicionais “companheiros” — colegas de partido que trocam experiências e estratégias — existe uma tropa auxiliar que merece destaque: os campanheiros e os campainheiros.

Campanheiro: é o profissional encarregado de organizar a campanha. Ele articula eventos, coordena equipes e desenha estratégias. Muitos já fazem disso sua profissão — conhecem como ninguém o ritmo frenético das eleições.

Campainheiro: o termo tem origem na prática religiosa de anunciar procissões tocando sinos ou campainhas. Nas campanhas, essa função se traduz em panfletagem e na divulgação da presença do candidato nas ruas, quase como uma "procissão política" em busca de votos.

Experiência antiga: Muitos candidatos ainda dependem exclusivamente das experiências de campanhas passadas e dos palpites de seus companheiros, campanheiros e campainheiros do presente. Porém, repetir fórmulas antigas pode gerar resultados ineficientes ou até desastrosos. O mundo da política mudou.

Pesquisa eleitoral é ferramenta essencial: Ela substitui boatos, traz conhecimento atualizado, identifica riscos súbitos e aponta soluções que geram estabilidade em meio à incerteza. Mais do que isso: suas informações neutras e anônimas fortalecem laços de confiança entre candidatos, mentores e equipe.

Uma campanha bem estruturada, conectada com a realidade e respaldada por pesquisas sérias, ganha força e resiliência para convencer o eleitor — especialmente em tempos em que a dúvida impera e o voto se torna cada vez mais estratégico.

Seja pelas mãos de entrevistadores ou pela inteligência dos robochats, a pesquisa eleitoral é o elo mais direto entre quem quer governar e quem vai escolher.



Nem os especialistas arriscam um palpite. Para Rogério Bonilha, sociólogo, ex-professor da Universidade Federal do Paraná e presidente do Instituto Bonilha, ainda é prematuro lançar qualquer prognóstico sobre as candidaturas e seus desdobramentos, uma vez que o cenário político eleitoral está em constante evolução e, neste caso, uma série de variáveis está em jogo.

Bonilha compara os candidatos a surfistas em um grande campeonato em alto-mar, no qual "cada um procura a onda perfeita para conquistar a vitória". Há, no entanto, correntes submarinas ocultas que podem mudar a direção das ondas a qualquer momento. "Por enquanto, o que temos são especulações, pois pouco se sabe sobre as 'correntes' que podem alterar o cenário político. Assim, é crucial manter uma postura cautelosa e aguardar o desenrolar dos acontecimentos". Essa é a opinião do analista entrevistado pelo jornalista Rene Ruschel, da Revista Carta Capital.

PESQUISA QUALITATIVA REVELA AS CORRENTES OCULTAS DO CENÁRIO POLÍTICO

Em pronunciamentos anteriores, Bonilha justifica a combinação de técnicas de pesquisas para melhor compreensão e previsão de resultados eleitorais. “A pesquisa científica é como um vasto oceano, onde as correntes e ondas desempenham papéis cruciais. Quando se trata de entender atitudes dos eleitores e antever resultados, dois métodos se destacam: pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa”.

Explica que a pesquisa qualitativa é como mergulhar fundo, explorando as profundezas das motivações, pensamentos e atitudes das pessoas. Ela não se limita a números e estatísticas; em vez disso, busca compreender a totalidade dos fenômenos. Ao estudar as correntes subjacentes, a pesquisa qualitativa permite identificar nuances e padrões que não seriam visíveis apenas na superfície. É como monitorar as correntes submarinas ocultas que podem impactar a direção das ondas a qualquer momento.

Por outro lado, as pesquisas quantitativas são como medir a altura e velocidade das ondas. Elas fornecem posições numéricas dos candidatos no ranking, como uma fotografia estática do presente, quantificando comportamentos e preferências dos eleitores. Essas pesquisas são estruturadas, objetivas e baseadas em dados estatísticos. Elas nos dizem quem está liderando a corrida, mas não necessariamente porque ou como o panorama poderá mudar.

Bonilha conclui: “Assim, enquanto a pesquisa qualitativa nos ajuda a identificar as correntes que moldam o futuro do cenário político, as pesquisas quantitativas nos mostram as posições do presente dos candidatos no ranking. Ambas são essenciais: as correntes nos guiam, e as posições nos dão contexto. Como surfistas eleitorais, os candidatos e gestores de campanhas, precisam estar atentos aguardando a "onda perfeita" em direção à vitória, mas sem descuidar das correntes que podem mudar tudo repentinamente”.



Assim como os surfistas precisam estar atentos às correntes e às ondas,
os candidatos e gestores de campanhas precisam estar preparados para tudo.







A arena eleitoral está aí, quase definida. Os competidores, em sua maioria, estão ganhando seus 15 minutos de fama. Por sua vez, os mais conhecidos ampliam sua presença, usando todos os artifícios para tal. E já são percebidas as articulações, interesses e alinhamentos de forças nas convenções.

A mídia cumpre expõe seguidamente as manifestações de suspeitas e exagera casos isolados, alimentando emoções e sentimentos de todos os tipos. Na maior parte são efêmeras e ocasionais. Algumas tornam-se artificialmente duradouras e periódicas, contudo artificiais e instrumentadas. Essas fornecem sustentação às utopias polarizadas, na expectativa de um dos lados preponderar e transformar-se em realidade.

Determinados veículos da mídia tradicional, arriscam sua credibilidade assumindo e assinando posições arriscadas, batendo pesadamente em adversários reais e virtuais, tanto analógica como digitalmente, desconhecendo-se o efeito dessa atitude na formação do voto.

Esse panorama, assim descrito, não garante segurança para os analistas criarem hipóteses sobre o adensamento das correntezas de pensamento dos eleitores. 

Posto que a opinião pública não se revela, mantendo-se silenciosa, sigilosa, em gestação lenta, escondendo suas intenções e vergonhas, seus likes e dislikes. Poderia ser chamada de opinião oculta.

O contexto deste momento não é retratado pelos meios de comunicação de forma séria e fidedigna, livre de turbulências e fake news. Encontra-se encoberto por camadas de espuma semântica, prestidigitações e percentuais de pesquisas fantasiosas, asfixiando o real discernimento da sociedade.

O que irá acontecer, nas próximas semanas, com essa opinião entocada e comprimida? Eclodirá repentinamente de forma acéfala e caótica? Produzirá um líder com a força e foco de um super-herói? Revelar-se-á cindida e débil pela corrosão das controvérsias? Será um tsunami que se desintegrará na praia desfazendo-se em marolas suaves? Não há resposta.

O fato é que não existe monitoramento informacional real e contínuo, metodologicamente correto, sobre o surgimento, crescimento e consolidação de tendências de atitudes e comportamentos sobre as eleições. Imperativo seria um acompanhamento eficiente, como recurso crucial para o design de cenários estratégicos para uso das lideranças políticas, dos stakeholders e principalmente dos gestores das campanhas. Tendo por beneficiário final, claro, um eleitorado bem informado.

Camadas de espuma semântica, prestidigitações e percentuais de pesquisas fantasiosas arrocham e aprisionam a verdadeira opinião pública. 



Os institutos de pesquisa que dominam os métodos e técnicas de conversação remota com os eleitores são os únicos que podem conduzir estudos eleitorais rápidos, confiáveis e personalizados - base para a criação de estratégias de sucesso que garantem ao político a principal cadeira da prefeitura.

Indispensáveis para a modelagem de diferenciais para as campanhas eleitorais e para a criação de proposições a serem feitas pelos candidatos, as pesquisas eleitorais, conduzidas como nos "velhos tempos", por meio de contatos pessoais, tornaram-se um serviço raro e demorado, prejudicadas pela duração e consequências da pandemia. Com isso, até mesmo os eleitores perdem uma importante fonte de informação sobre o andamento das eleições no seu município, sobre o potencial dos candidatos a prefeito e a respeito das suas pretensões.

Pesquisa qualitativa. Grupos focais remotos. Todo mundo na telinha.Adicionar legenda



Como todos percebem, as eleições provocam sentimentos negativos: antipatia por candidatos, descrença em propostas, frustração com as instituições democráticas, pessimismo sobre mudanças. Eleição após eleição as pesquisas evidenciam a crença de que os candidatos não são “grandes coisas” e sempre dão um “jeitinho para se reelegerem”. Quanto aos novos, esses adquirem velhos comportamentos, sendo apenas “mais dos mesmos”. Quando a pesquisa indaga a razão da escolha, a resposta corriqueira é: “voto no menos pior”.

TRANSIÇÃO
Como encontrar algo de bom nessa malquerença do eleitor? As eleições têm um lado positivo? Há razões para esperança. Uma tendência se forma e traz ânimo. A superpopulação planetária e seus super problemas estão a exigir medidas abrangentes e independentes da vontade de políticos autóctones. Eles contribuem pouco, ora agindo inspiracionalmente, ora colocando-se a serviço de interesses estranhos. Todavia, soluções estão brotando de laboratórios, centros de pesquisa, universidades e de instituições globalizadas. Elas concebem formas inovadoras de combate aos males, a partir de questões comuns aos países, compartilhando com eles recursos e experiências exitosas.

POLÍTICOS
O panorama é desafiador. Ele requer dos políticos da década número dois, competências e atitudes, corajosas e compatíveis com uma interação diferenciada com a sociedade e o planeta. Como essa esperança pode se concretizar? A resposta está contida na palavra da moda: mindset. O primeiro passo de um político producente seria submeter o próprio cérebro a um setup consciente, que o habilite a atuar em consonância com os imperativos da realidade. Treinar e domesticar a mente para substituir perspectivas, desaprender reminiscências, convergir propósitos pessoais com os coletivos, refrescar a network trazendo companhias afinadas com o novo posicionamento, ampliar a sinergia com o eleitorado, colocar o cidadão no centro de tudo, construir alianças voltadas à ação, aprofundar a compreensão dos fatos da política e da sociedade - tendo frequentemente em mãos pesquisas de opinião, estudos sociais e informações tecnológicas. Esse personagem, sem necessariamente ser super-herói, poderia ser chamado de Político 2.0.

CAMPANHAS
O segundo passo acontece no âmago da campanha eleitoral. A receita da transformação está condensada na palavra: reshape. Essa remodelagem prevê o abandono da ideia da “campanha safári”, envolvendo caçadores de votos, ou da “campanha rodeio”, destinada a laçar eleitores pela retórica vazia. Ao invés, concebê-la como um projeto colaborativo, de amplo interesse social, pois dele depende a reversão para um presente melhor e o avanço para um futuro promissor. Não é recomendável o transplante de experiências anteriores, de outras campanhas, mesmo vitoriosas. Seus integrantes devem resistir à tentação do “funcionou antes” e do “seria legal fazer”. O planejamento de ações e de plataformas de propostas requer orientação por valores bem articulados. A execução obedeceria a diretrizes tecnicamente embasadas, norteada por princípios científicos. É no ambiente da campanha que o Político 2.0 consolida seu mindset. Viabiliza-se ao experimentar um ambiente de reflexão técnica sobre a atualidade, de discussão dos atributos necessários para o exercício do cargo e de exercícios para um diálogo efetivo com a comunidade.

REMODELAGEM
A repaginação mental dos políticos e a renovação do design das suas campanhas são condicionantes para uma nova fase de confiança e otimismo. Por isso, “campanhas relâmpago” desservem o sistema político. Ao contrário, precisam de mais tempo, o suficiente para incutir-lhes preparo moral, intelectual e profissional. É na convivência duradoura com times competentes que o Político 2.0 aprenderá a substituir as respostas antiquadas para antigas dificuldades por melhores práticas. E a identificar os problemas vindouros, precavendo-se contra os impasses imprevisíveis ou contingenciais. 

A história, mais uma vez, baixou sua cancela, impondo limite ao avanço das desídias, egoísmos e despreparos. Mas oferece passe livre para aqueles que, legitimados pelo voto, usam da prerrogativa do cargo para serem protagonistas de grandes missões guiadas por visões de vanguarda. Abre oportunidade para os Políticos 2.0. Que venham!

Eleições 2020 aguardam Políticos 2.0



Os partidos sempre foram vistos negativamente pelos eleitores ou, pelo menos, não tinham nenhum valor para eles. Neste momento, desfrutam de uma reputação EXTERNA péssima. A novidade é: a imagem negativa começa a corroer os partidos também INTERNAMENTE. Constata-se que as lideranças partidárias municipais estão mantendo relações frias com as lideranças maiores e diretórios estaduais. Frustrados com a mudança do panorama político e partidário, não esperam muito deles. Enfraquecidos e desprestigiados estão conservando toda a energia para o fito de sobreviver e não para desperdiçar em lealdade. O pouco que lhes é oferecido e o muito que lhes é sugerido não provoca impacto na atitude dos membros locais. Com vistas a 2020 disputam entre si as oportunidades, desconfiam das tentativas de diálogos e negociações dos líderes top e recebem com receio propostas e planos vindos de cima, com medo de que contenham algum grau de ilicitude.

Os partidos políticos estão partidos e perdidos. Irão se recompor e achar um caminho?