Como todos percebem, as eleições provocam sentimentos negativos: antipatia por candidatos, descrença em propostas, frustração com as instituições democráticas, pessimismo sobre mudanças. Eleição após eleição as pesquisas evidenciam a crença de que os candidatos não são “grandes coisas” e sempre dão um “jeitinho para se reelegerem”. Quanto aos novos, esses adquirem velhos comportamentos, sendo apenas “mais dos mesmos”. Quando a pesquisa indaga a razão da escolha, a resposta corriqueira é: “voto no menos pior”.

TRANSIÇÃO
Como encontrar algo de bom nessa malquerença do eleitor? As eleições têm um lado positivo? Há razões para esperança. Uma tendência se forma e traz ânimo. A superpopulação planetária e seus super problemas estão a exigir medidas abrangentes e independentes da vontade de políticos autóctones. Eles contribuem pouco, ora agindo inspiracionalmente, ora colocando-se a serviço de interesses estranhos. Todavia, soluções estão brotando de laboratórios, centros de pesquisa, universidades e de instituições globalizadas. Elas concebem formas inovadoras de combate aos males, a partir de questões comuns aos países, compartilhando com eles recursos e experiências exitosas.

POLÍTICOS
O panorama é desafiador. Ele requer dos políticos da década número dois, competências e atitudes, corajosas e compatíveis com uma interação diferenciada com a sociedade e o planeta. Como essa esperança pode se concretizar? A resposta está contida na palavra da moda: mindset. O primeiro passo de um político producente seria submeter o próprio cérebro a um setup consciente, que o habilite a atuar em consonância com os imperativos da realidade. Treinar e domesticar a mente para substituir perspectivas, desaprender reminiscências, convergir propósitos pessoais com os coletivos, refrescar a network trazendo companhias afinadas com o novo posicionamento, ampliar a sinergia com o eleitorado, colocar o cidadão no centro de tudo, construir alianças voltadas à ação, aprofundar a compreensão dos fatos da política e da sociedade - tendo frequentemente em mãos pesquisas de opinião, estudos sociais e informações tecnológicas. Esse personagem, sem necessariamente ser super-herói, poderia ser chamado de Político 2.0.

CAMPANHAS
O segundo passo acontece no âmago da campanha eleitoral. A receita da transformação está condensada na palavra: reshape. Essa remodelagem prevê o abandono da ideia da “campanha safári”, envolvendo caçadores de votos, ou da “campanha rodeio”, destinada a laçar eleitores pela retórica vazia. Ao invés, concebê-la como um projeto colaborativo, de amplo interesse social, pois dele depende a reversão para um presente melhor e o avanço para um futuro promissor. Não é recomendável o transplante de experiências anteriores, de outras campanhas, mesmo vitoriosas. Seus integrantes devem resistir à tentação do “funcionou antes” e do “seria legal fazer”. O planejamento de ações e de plataformas de propostas requer orientação por valores bem articulados. A execução obedeceria a diretrizes tecnicamente embasadas, norteada por princípios científicos. É no ambiente da campanha que o Político 2.0 consolida seu mindset. Viabiliza-se ao experimentar um ambiente de reflexão técnica sobre a atualidade, de discussão dos atributos necessários para o exercício do cargo e de exercícios para um diálogo efetivo com a comunidade.

REMODELAGEM
A repaginação mental dos políticos e a renovação do design das suas campanhas são condicionantes para uma nova fase de confiança e otimismo. Por isso, “campanhas relâmpago” desservem o sistema político. Ao contrário, precisam de mais tempo, o suficiente para incutir-lhes preparo moral, intelectual e profissional. É na convivência duradoura com times competentes que o Político 2.0 aprenderá a substituir as respostas antiquadas para antigas dificuldades por melhores práticas. E a identificar os problemas vindouros, precavendo-se contra os impasses imprevisíveis ou contingenciais. 

A história, mais uma vez, baixou sua cancela, impondo limite ao avanço das desídias, egoísmos e despreparos. Mas oferece passe livre para aqueles que, legitimados pelo voto, usam da prerrogativa do cargo para serem protagonistas de grandes missões guiadas por visões de vanguarda. Abre oportunidade para os Políticos 2.0. Que venham!

Eleições 2020 aguardam Políticos 2.0



A urna eletrônica, ela sim, precisa conhecer com a máxima segurança quem o eleitor é. Hoje existem métodos para checar a identidade do cidadão. São os que os bancos usam. Para votar, as urnas brasileiras, na sua singeleza, não exigem upload de dados, senha do eleitor, resposta às questões que só o eleitor saberia responder. O método é mais elementar: presença física, um documento com o nome e a digital. Faz parte do kit da urna o lenço de papel, pois nem sempre a datiloscopia funciona. Há risco? Há discussões a respeito, preocupações de especialistas em segurança cibernética, mas nenhuma hipótese de fraude ou acesso ilegal foi comprovada. Estará superada em breve? Sim.

Tecnologia nova já existe e, em eleições estrangeiras, vem sendo gradativamente testada. A forma de identificação de dois fatores, talvez você conheça, é avançada principalmente se conjugada com a leitura digital ou facial. Em breve, quando as urnas eletrônicas forem substituídas por meios mais práticos e invulneráveis, você poderá votar tal como opera atualmente sua conta bancária, no computador ou no celular. Fazer um pagamento é algo semelhante a votar. Você compra, com o valor do seu voto, o serviço que um representante político irá prestar à comunidade.

O progresso está chegando com o processamento blockchain. Transparência é a grande vantagem. Seu voto em blockchain não desaparece: terá como acompanhá-lo, desde o momento em que o efetivar, até o destino final, a contagem e o resultado. Conhecerá seu trajeto inteiro. E tem gente ainda querendo implantar o recibo do voto em papel impresso. Mediante blockchain seu voto entra numa corrente que o impede de ser hackeado ou alterado, enquanto você permanece anônimo. Creia, é matematicamente possível provar que você votou sem dar a conhecer a sua existência. A coisa chama-se "zero-knowledge proof".

A responsabilidade da Justiça Eleitoral, dos partidos políticos e dos candidatos é oferecer um sistema seguro de votação que conquiste o máximo de confiança do eleitorado, garantindo a legitimidade de cada voto. Tecnologia ajuda.

Hora de renovar: novos equipamentos para votar e novos líderes para governar.


O histórico das pesquisas sobre a eleição vitoriosa de Trump revela que a definição cuidadosa de metodologias, rigorosamente moldadas pelo contexto competitivo, foi decisiva para a existência de previsões acertadas.

Os resultados mais próximos da realidade das urnas vieram dos trackings, acompanhamentos feitos dia a dia, junto aos eleitores, durante todo o período de campanha eleitoral.

A medição diária do comportamento dos eleitores realizada pelo USC Tracking (South California University), baseada em uma amostra bem equilibrada e em cruzamentos de indicadores consistentes, indicou a possibilidade da vitória de Trump. Ela assemelhou-se ao bem sucedido tracking aperfeiçoado e utilizado, eleição após eleição, pelo Instituto Bonilha.

Nas pesquisas norte-americanas aconteceram equívocos, sim, especialmente com as estimativas esporádicas e realizadas com públicos-alvo mal definidos.

Uma das razões apontadas para a ocorrência de previsões errôneas foi a das amostras baseadas no perfil de votantes da eleição anterior. Ignorou-se a mudança, na participação, de segmentos importantes. Por exemplo, diminuiu a de negros e millenials e aumentou a de brancos nas áreas rurais.

No Brasil, pode-se antever que grandes contingentes de eleitores irão esquivar-se das eleições, não apenas pela ausência física, mas optando pelo voto branco ou nulo. Se as pesquisas não estiverem atentas a estes “não-eleitores”, caminharão para desacertos monumentais. Outras alterações de comportamento poderão ocorrer no calor da disputa, com nuances que somente pesquisas diárias poderão captar.

Quem procura informações sobre as previsões da vitória de Trump sobre Hillary em 2016, com base em pesquisas eleitorais, achará as duas versões: estavam corretas ou foram refutadas.

Analistas, para fundamentar explicações úteis para o aperfeiçoamento dos métodos de pesquisa, tentam localizar a causa das falhas e compor teorias a respeito. Nos Estados Unidos,  a dificuldade inicial é a enorme quantidade de pesquisas realizadas. Por lá, não há economia: pesquisa-se generosamente. São centenas de empresas e veículos de comunicação acompanhando o comportamento dos eleitores. Cerca de 20 delas, as maiores, conduziram mais de 80 sondagens nos últimos 30 dias que precederam à votação para Presidente.

Diferentemente, no Brasil, as pesquisas eleitorais são monopolizadas por institutos fortemente ligados aos maiores veículos de comunicação. Seus resultados nem sempre chegam aos eleitores, que poderiam contar com eles para uma decisão de voto bem informada.

Entrevistas diárias com os eleitores aumentam a precisão das pesquisas eleitorais.


O eleitor é perseguido pelos percentuais dos estudos eleitorais. Sua reação vai da aceitação passiva dos resultados à rejeição raivosa. Uma gama de comportamentos eclode a cada divulgação de resultados de pesquisa. Todavia são pouco frequentes e pouco informativas para a formação de uma opinião fundamentada. Definhadas, esquálidas e raras - sem o vigor dos estudos sérios - não têm o vigor dos levantamentos de circulação restrita, reservados aos estrategistas políticos.

Os eleitores são vítimas de disparos numéricos, estímulos para provocar suas emoções e engajá-los num rude e rudimentar jogo eleitoral dicotômico, do bem contra o mal. Tornam-se pateticamente confusos, pasmados diante do sobe e desce dos percentuais, que dançam conforme as conveniências dos disputantes, da mídia e dos grupos de poder. São pesquisas metodologicamente precárias, carentes de rigor científico, marcadas tanto pelos disparates técnicos quanto pelos duvidosos resultados.

Necessárias, as pesquisas carecem de amplitude, profundidade e riqueza de detalhes. Não apenas para registro, mas para divulgação, a ficha técnica é essencial: como foi realizada, quando, qual é a sua validade, quem patrocinou e onde o arquivo completo dos resultados integrais pode ser facilmente acessado. Como se fosse um rótulo detalhado. A cobertura da mídia, por sua vez, deveria valorizar esses aspectos da produção do estudo, indo além da simples publicação dos números mais expressivos. E um cuidado ético impõe-se: evitar a mistura do padrão jornalístico com o teor publicitário.

Outras organizações, e não apenas dois ou três institutos privados, deveriam integrar o rol dos produtores de pesquisas eleitorais, como as universidades, seguindo o exemplo das instituições estrangeiras.

A cada ano eleitoral poucas mudanças são realizadas. A diferença assenta-se no potencial punitivo da Justiça Eleitoral, a observar a má fé ou a má feitura das pesquisas eleitorais. Mal intencionadas ou mal conduzidas acabam conquistando um espaço significativo, dificultando o discernimento do eleitor que vê na pesquisa mais uma fonte de informação para nortear sua decisão.

O controle de qualidade das pesquisas, hoje, é tímido e limitado. Poderia ser facultado a terceiros especializados nessa função, como as empresas de auditoria. Os tribunais eleitorais deveriam ser assessorados, durante todo o ano eleitoral, por um comitê técnico, integrado pela associação dos institutos de pesquisa, por professores de metodologia cientifica das universidades e representantes do conselho de estatística. Seria uma medida inteligente, democrática, mais evoluída do que a simples proibição, censura ou remediação tardia.

Do jeito que o eleitor já conhece. E não gosta.



Como renovar as cidades? Como implantar novos cenários e paisagens? Como melhorar os serviços públicos de saúde, segurança, educação e transporte coletivo? Como aperfeiçoar processos de gestão pública? Como envolver os cidadãos? Como fazer tudo isso sem cair na mesmice?

O debate sobre inovação no planejamento e na gestão urbana torna-se oportuno e indispensável neste momento de revisar tudo: Planos Diretores, Estatuto da Metrópole, Estatuto das Cidades, Planos de Mobilidade e tantos outros. E à luz dos novos conceitos de sustentabilidade urbana: Cidade Inteligente, Cidade Digital, Cidade Verde e assim por diante.

A impossibilidade de inovar todas as dimensões da cidade exige um olhar mais focado nas prioridades, abrangendo todos os tópicos das áreas de segurança, saúde, educação e mobilidade. Mesmo priorizando-as-prioridades, ou seja, concentrando-se em  atuar somente no essencial, há muito a se fazer. Inevitável a dificuldade de "fazer mais com menos", particularmente na saúde e segurança. Abrem-se, então, os portões das cidades para os profissionais competentes dotados de visão criativa, planejadores e gestores públicos aptos para estrategizar e executar. Seu esforço não estaria focado na produção de soluções inovadoras originais, raras, mas na importação e adaptação de boas-práticas exitosas, mesmo se procedentes de cidades do exterior. A troca de experiências para a conhecimento, compreensão, ajuste e aplicação de soluções renovadoras é cada vez mais imprescindível.

Participação do cidadão

Em paralelo, há que se disseminar novos valores à comunidade, angariando-se seu engajamento e estimulando-se a prática da cidadania. Este exercício de se manter cidadão é diário, e se concretiza no desempenho de um papel, por menor que seja, no destino da cidade. Pode ser a execução de uma simples tarefa, como a de separar o lixo ou a defesa de um conceito mais complexo, sobre violência urbana, numa reunião de professores.

A grandeza da missão de renovar as cidades requer a superação de limites. Uma cidade não terá futuro se excluir seus cidadãos desse processo. Não mais pertence e nem mais é da alçada exclusiva do governo, mesmo do municipal. Setores da sociedade precisam se entrelaçar num esforço comum, como os conselhos profissionais, as federações da indústria e do comércio, as universidades, associações e, por que não, as empresas, profissionais liberais, etc. Sem desmerecer os engenheiros de tráfego e suas simulações geo-referenciadas,  por que não integrar,  na busca de soluções de mobilidade, os motoristas de táxi e de ônibus, velhos conhecedores das mazelas do trânsito?

Nos novos tempos, os institutos de planejamento urbano, as secretarias com a mesma finalidade e assemelhados, devem recuperar seu papel e adquirir maior eficiência. As cidades precisam de centros de excelência, enfatizando a pesquisa e o desenvolvimento, que tragam resultados significativos e mensuráveis, mas convivendo com as manifestações técnicas originárias da sociedade civil. E, em dose maior, as manifestações humanas dos seus cidadãos.

O Sr. Lego é um cidadão sem poder de influência sobre sua cidade. Se fosse entrevistado diria:
"sinto-me como se fosse um boneco, nas mãos do governo e vivendo numa cidade fictícia".


Grupos focais (focus groups) realizados com jovens, nas proximidades de eleições, mostram o drama da exposição à violência urbana a que estão submetidos esses cidadãos brasileiros. Sentem-se desprotegidos quando circulam, sozinhos ou acompanhados, nas idas e vindas para a escola ou para o trabalho e nas andanças de lazer e entretenimento. Vivem dois papéis. Como vítimas potenciais, sofrem medo. Como suspeitos, preconceito.

Em todo lugar as mesmas queixas e constatações. Especialmente quando são menores e habitantes de regiões desfavorecidas ou periféricas, afirmam receber tratamento indigno. São vistos com desconfiança tanto por parte de civis quanto pela polícia. No caso da polícia, na  ausência de regras objetivas, informação e treinamento, a abordagem segue a intuição. E essa é influenciada pela aparência, roupa, corte de cabelo, cor da pele, tatuagem, dentre outros sinais. As condições do bairro e da habitação passam também a integrar a classificação.

Na mesma linha, os cidadãos comuns pautam sua conduta em julgamentos preconcebidos. Mantêm distância, aguardam, atravessam a rua para não cruzar com jovens. Quando dirigindo, não é incomum que prefiram avançar o sinal vermelho para não arriscar contato visual ou verbal com algum deles presente nas cercanias.

A causa dessa cautela excessiva entre todos, dessa desumana prevenção, desse receio desmesurado, está na gravidade da situação, que gera um fluxo intermitente de notícias verdadeiras sobre a violência. Violência ininterrupta que tira o gosto pela vida, quando não a própria vida. Violência gritante que coloca o pais no topo vergonhoso das estatísticas mundiais.

Nova eleição se aproxima e o horário eleitoral será palco para a exploração da insegurança das famílias e das comunidades. Eleitores saberão que os candidatos conhecem a demanda e que estão cientes sobre a necessidade de se fazer algo. E, novamente, as tão esperadas propostas de solução para esse descalabro virão. Virão, como sempre, fantasiadas de ... mais módulos... mais viaturas... mais efetivos... mais armamentos... Como se a quantidade de votos fosse proporcional à quantidade prometida. Que tal mais... muito mais inteligência?

Pesquisa: jovens não acreditam no poder do voto para resolver violência contra eles.