As eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos mobilizou as atenções do planeta, sob um clima de tensão máxima. Não é para menos: a composição do Congresso americano mexe diretamente com os rumos da economia global, taxas de juros, cadeias de suprimentos e até com os rumos da diplomacia e da paz mundial. 

E, como sempre acontece nas vésperas de uma grande eleição, os cidadãos são bombardeados por dezenas de gráficos e porcentagens todos os dias. Mas será que as pesquisas mostram a realidade como ela é?

Inspirado nas análises técnicas recentes de Nate Cohn, analista de pesquisas do The New York Times, e olhando através de lentes sistêmicas, eu sociólogo, trago uma reflexão para nos ajudar a respirar e ler esses números com mais sabedoria. Aqui vai:

1. Pesquisa não é espelho; é um filtro de ruído
Na teoria de sistemas, o mundo ao nosso redor é infinitamente complexo e barulhento. Uma pesquisa de opinião não é um espelho mágico da mente de milhões de eleitores; ela é um mecanismo de redução de complexidade.

Como bem pontua Nate Cohn no NYT, o instituto de pesquisa precisa tomar decisões difíceis nos bastidores para tentar transformar esse barulho em algo compreensível:

·        Nem todo mundo atende o telefone ou concorda em responder (eleitores democratas costumam responder muito mais do que eleitores conservadores);

·        O instituto precisa "pesar" as respostas na matemática para tentar compensar a parcela de quem não quis falar;

·        E tentar prever quem, de fato, vai sair de casa para votar no dia da eleição. 

2. O ser humano não funciona como uma linha reta
A tentação comum é pensar em causa e efeito linear: "se a economia oscilou, as pessoas vão votar de tal jeito".

Sabemos que os sistemas humanos não obedecem a comandos externos diretos. O eleitor não é um robô. Um cidadão pode estar insatisfeito com a inflação ou com a política internacional, mas decidir seu voto na última hora por lealdade partidária, por rejeição a um candidato ou simplesmente optar por ficar em casa. A matemática das pesquisas capta tendências, mas não anula a imprevisibilidade da vida real.


3. O olhar de "segunda ordem": observe quem está observando

Em vez de entrar em desespero toda vez que uma nova pesquisa sai com uma oscilação de 1% ou 2%, (como estava a acontecer na eleição presidencial brasileira) a melhor postura é ser um "observador de segunda ordem" — isto é: olhar não apenas para o resultado, mas para como aquele resultado foi construído.

As pesquisas continuam sendo ferramentas valiosíssimas para mapear o terreno, mas elas funcionam muito mais como um termômetro sob pressão do que como uma profecia cravada em pedra.

Num cenário internacional em que a estabilidade política da maior potência do mundo define as regras do jogo para todos nós, entender os limites e a beleza da comunicação política é o primeiro passo para não sermos manipulados pela ansiedade das manchetes. #Midterms2026 #midtermsEUA 


Você costuma confiar nas pesquisas de véspera ou prefere aguardar a contagem oficial dos votos? Pense. Teremos muitas eleições pela frente. Claro, pesquisas também. 
Midterm Elections 2026



 Vivemos cercados por conteúdos, dados e opiniões. O verdadeiro desafio já não é apenas encontrar informação, mas saber o que fazer com ela. Uma base teórica sólida oferece justamente essa possibilidade: organizar o que aprendemos sem eliminar a abertura para o novo.

No fim, aprender com profundidade não significa saber tudo sobre um assunto. Significa desenvolver uma estrutura capaz de receber novas informações, interpretá-las criticamente e conectá-las de maneira coerente. É dessa forma que construímos um conhecimento ao mesmo tempo singular e rigoroso — orientado pelos nossos interesses, sustentado por boas teorias e continuamente ampliado pelas descobertas que fazemos ao longo do caminho.

Por exemplo, dados obtidos por meio de pesquisas de opinião ou de mercado, transformam-se em informação, mas seu valor permanece limitado se não forem organizados e interpretados à luz de um plano teórico. É essa estrutura que permite selecionar o que é relevante, estabelecer relações entre evidências e transformar descobertas isoladas em compreensão significativa. 

#Pesquisa #Informação #BaseTeórica #OrganizaçãoDoConhecimento

Sem uma base teórica, acumulamos informações. Com ela, construímos conhecimento.



No Instituto Bonilha, buscamos continuamente compreender as dinâmicas complexas do comportamento eleitoral no Brasil. Para isso, adotamos a teoria dos sistemas sociais de Niklas Luhmann como uma ferramenta analítica central em alguns de nossos estudos mais aprofundados. Essa abordagem nos permite ir além das explicações simplistas e personalistas, oferecendo uma lente precisa para analisar como os diversos subsistemas sociais — como a política, a mídia e a economia — interagem e influenciam as decisões eleitorais. 

A teoria dos sistemas sociais de Luhmann oferece uma lente analítica de alta precisão para examinar as eleições presidenciais brasileiras sem descambar para o moralismo, o voluntarismo ou o personalismo político. Ao afastar a premissa de que a política é movida prioritariamente por "vontades individuais" ou por uma "luta de classes linear", a sociologia luhmanniana permite compreender a eleição como um processo interno do sistema político que se mantém por si mesmo, atravessado por interações estruturais com os meios de comunicação, o direito e a economia.

A Função do Subsistema Político e o Código Binário 
Na perspectiva luhmanniana, a sociedade moderna é funcionalmente diferenciada em subsistemas autônomos. O subsistema político existe para produzir decisões vinculantes para toda a sociedade. 
  • O Código Governo/Oposição (ou Poder/Não-Poder): A eleição presidencial é o mecanismo formal de distribuição do poder político. O pleito não serve para "descobrir a verdade" ou "alcançar o bem comum", mas para decidir quem assume o código de governo e quem fica na oposição.
  • A Redução de Complexidade: A corrida presidencial condensa a imensa complexidade das demandas sociais em uma escolha simplificada (candidato A vs. candidato B), permitindo que o sistema continue operando de forma estável.

A Mídia de Massas e a Construção da Realidade Eleitoral
Em A Realidade dos Meios de Comunicação, Luhmann aponta que aquilo que sabemos sobre a sociedade nos chega via meios de difusão. No contexto brasileiro contemporâneo, isso abarca a mídia tradicional e os ecossistemas digitais (redes sociais e aplicativos de mensagens).
  • Acoplamento Estrutural Política-Mídia: A política precisa da mídia para adquirir visibilidade; a mídia precisa do conflito político para gerar atenção e "informação" (que rapidamente se torna não-informação).
  • Escândalos e Temas de Campanha: A eleição é pautada por "irritações" que a mídia inflige ao sistema político. Escândalos de corrupção ou pautas morais operam como seletores de atenção, forçando os candidatos a reestruturar suas estratégias de comunicação.

Acoplamento com o Sistema Jurídico (Judicialização e Operação)
A atuação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) nas eleições brasileiras exemplifica o acoplamento estrutural entre o sistema político e o sistema jurídico. (A intervenção judicial busca evitar a "corrupção do código" político, por exemplo, o uso irrestrito da máquina pública para anular a oposição), embora a hipertrofia do Judiciário possa gerar uma desestabilização recíproca quando a lógica jurídica passa a ditar quem pode ou não concorrer.

Desafios Sistêmicos no Cenário Brasileiro
  • Polarização e Inclusão/Exclusão: A hiperpolarização pode ser lida como um fechamento excessivo de blocos políticos, onde a comunicação se recusa a aceitar a contingência (a possibilidade de o outro lado estar certo ou ser legítimo).
  • Acoplamento com a Economia: Promessas fiscais, expectativas do mercado financeiro e a reação das bolsas atuam como ruídos e restrições econômicas (terceiro subsistema) que delimitam as margens de manobra dos programas eleitorais.

A grande contribuição de Luhmann para analisar a eleição presidencial no Brasil consiste em despersonalizar o debate: em vez de focar apenas nas virtudes ou defeitos morais dos candidatos, a teoria revela como as estruturas comunicativas, os algoritmos e os ritos institucionais condicionam, limitam e viabilizam o resultado político.

Acoplamento estrutural entre o sistema político e o sistema jurídico



No íntimo do pesquisador das ciências humanas e sociais, o equilíbrio entre Yang e Yin se transforma numa coreografia psicológica que sustenta sua própria capacidade de compreender o mundo. O Yang aparece como aquela força que o impele a entrar em campo, a entrevistar, observar, registrar, interpretar. É o impulso que o faz atravessar cidades, comunidades, arquivos, memórias; que o leva a mergulhar em histórias de vida, conflitos, desigualdades, afetos e silêncios. É a energia que o convence de que cada gesto humano — do mais grandioso ao mais banal — guarda uma pista sobre o funcionamento da sociedade.

Mas o Yin é o que o mantém inteiro. Ele surge quando o pesquisador percebe que não pode carregar o mundo sozinho. É o momento em que ele se recolhe para elaborar o impacto emocional de ouvir relatos de dor, de testemunhar injustiças, de lidar com contradições que não se resolvem. É o Yin que o ensina a escutar sem se dissolver, a interpretar sem violentar, a reconhecer que o outro não é um objeto de estudo, mas um sujeito vivo, complexo, imprevisível. É o Yin que o lembra de que compreender o humano exige cuidado — com o outro e consigo mesmo.

E assim, entre o impulso investigativo e a escuta sensível, o pesquisador das humanidades se constrói. Ele sabe que suas descobertas — sejam elas sobre a dinâmica de uma comunidade ribeirinha, sobre a memória de trabalhadores urbanos, sobre a linguagem que molda identidades ou sobre os rituais que sustentam vínculos sociais — nascem desse vaivém entre ação e contemplação. Sabe também que o desespero diante das etapas de um projeto não é apenas técnico: é existencial. Porque pesquisar o humano é, inevitavelmente, confrontar-se com a própria humanidade.

No fundo, o pesquisador vive num território onde céu, terra e mar são metáforas internas: o céu das teorias que o inspiram, a terra dos contextos concretos que o desafiam, o mar profundo das emoções e significados que ele precisa navegar. E é no equilíbrio entre Yang e Yin — entre o rigor e a sensibilidade, entre o método e a empatia — que ele encontra a força para seguir investigando o que somos, o que fazemos e o que ainda podemos ser.

Yang e Yin: a dança silenciosa que sustenta quem investiga o mundo.


Em 2026, o Tracking Research ganha importância ainda maior. Acompanhar diariamente as opiniões e preferências do eleitorado é decisivo para orientar campanhas bem-sucedidas.

O que é Tracking Research?

Tracking Research é o acompanhamento diário e online da percepção dos eleitores. Com dados em tempo real, candidatos podem avaliar rapidamente a recepção de suas mensagens e ajustar suas estratégias. Assim, as campanhas respondem com agilidade às mudanças na opinião pública.

Por que o Tracking Research é indispensável nas eleições?

Monitoramento de opiniões: mostra como a percepção dos eleitores muda ao longo da campanha.

Ajustes estratégicos: permite que candidatos e partidos revisem mensagens e ações com base em dados atualizados.

Identificação de tendências: ajuda a antecipar cenários e a reconhecer os temas mais relevantes para o eleitorado.

Exemplo

O gráfico compara o desempenho diário de dois candidatos fictícios e mostra a evolução dos percentuais de voto durante sete dias. 

Os dados são apenas ilustrativos e não correspondem a uma pesquisa real.




Conheça os métodos qualitativos e técnicas de IA para analisar discursos eleitorais — tópicos, retórica, oratória, polarização, redes sociais e ética. 

Introdução

O “falatório” dos candidatos — pronunciamentos em comícios, entrevistas, redes sociais e na imprensa — é uma fonte rica de informação sobre prioridades, estratégias e posicionamentos.

Aplicando técnicas de inteligência artificial integradas a métodos qualitativos, pesquisadores conseguem mapear padrões, mudanças e tensões nos discursos sem reduzir tudo a métricas isoladas.

Este texto, com tom didático, apresenta os principais tipos de análise, procedimentos de coleta, limites éticos e aplicações práticas. Em breve, este conteúdo fará parte de um curso a distância sobre pesquisa eleitoral.

Principais tipos de análise

1. Análise de Tópicos - O que faz: identifica os temas centrais presentes nos discursos e como eles se articulam. Por que importa: revela prioridades do orador e a agenda temática que ele tenta construir.
2. Análise Retórica - O que faz: examina recursos persuasivos como metáforas, analogias, repetições e enquadramentos. Por que importa: mostra estratégias de convencimento e como o discurso busca mobilizar diferentes públicos.
3. Análise de Polarização - O que faz: detecta termos e construções que tendem a dividir ou a unir audiências. Por que importa: ajuda a identificar quando um discurso acentua fronteiras sociais, ideológicas ou identitárias.
4. Análise de Redes Sociais - O que faz: mapeia como trechos do discurso são compartilhados, quem amplifica a mensagem e padrões de disseminação. Por que importa: mostra a circulação pública do discurso e potenciais vetores de amplificação ou desinformação.
5. Análise Comparativa Temporal - O que faz: compara discursos ao longo do tempo para identificar mudanças de posição ou consistência retórica. Por que importa: permite rastrear evolução de temas e eventuais reposicionamentos.
6. Análise de Sentimento Contextual - O que faz: avalia o tom emocional associado a tópicos específicos, em vez de medir apenas um sentimento geral. Por que importa: diferencia reações a temas distintos como economia, segurança ou saúde.
7. Análise de Entidades Nomeadas - O que faz: identifica e categoriza pessoas, organizações e locais citados nos discursos. Por que importa: ajuda a mapear referências, alianças e focos geográficos do orador.

Coleta de dados e procedimentos metodológicos 

  • Fontes: gravações de comícios, transcrições de entrevistas, posts oficiais, matérias jornalísticas e legendas de vídeos.
  • Processo: padronização e limpeza das transcrições; anotação qualitativa por pesquisadores; aplicação de modelos de IA para extração de tópicos, entidades e padrões retóricos.
  • Validação: triangulação entre análise automática e leitura humana para reduzir erros de interpretação.
  • Documentação: registrar critérios de seleção, versões de modelos e parâmetros para garantir replicabilidade.

Limites e considerações éticas

  • Contexto é essencial: trechos isolados podem ser mal interpretados; entonação, público e situação devem ser considerados.
  • Viés de amostragem: cobertura desigual na mídia ou falta de gravações pode distorcer conclusões.
  • Risco de instrumentalização: análises podem ser usadas indevidamente; pesquisadores devem explicitar objetivos e salvaguardas.
  • Privacidade e consentimento: respeitar direitos de imagem e uso de dados, especialmente em gravações não públicas.
  • Transparência metodológica: publicar critérios e limitações para que leitores avaliem a robustez dos achados.

Aplicações práticas

  • Pesquisa acadêmica: testar hipóteses sobre mudança de agenda, coerência retórica e estratégias discursivas.
  • Jornalismo: contextualizar declarações, checar consistência e identificar padrões relevantes para reportagens.
  • Organizações civis e observatórios: monitorar discurso público, detectar riscos de desinformação e mapear narrativas de interesse público.
  • Observação: este é um conteúdo técnico destinado a fins de pesquisa e formação. Não fornece orientação de campanha, persuasão eleitoral ou instruções de marketing político.
  • Conclusão

A combinação de métodos qualitativos e ferramentas de IA amplia a capacidade de ler o “falatório” político com mais nuance e rigor. Análises confiáveis dependem de coleta sistemática, validação humana e documentação transparente e confiável. 

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O que o seu candidato realmente diz? E o que deixa de dizer?